Aquele em que falamos sobre falar

Dentre as muitas coisas que a minha profissão me ensina, uma das principais é que falar é importante. Quando revelamos ao outro algo que pensamos, isso produz alguma coisa “ali”. Inclusive, até quando as coisas não são como gostaríamos – depois de ter dito –, quem diz, costuma achar positivo o fato de ter falado e de poder olhar para as coisas como elas são [acredite! ouço isso constantemente lá no consultório]. Se há uma promessa boa para o final do ano, escolha falar, verbalizar, compartilhar, enfim. Faça isso mesmo quando achar arriscado. E, para esclarecer, quando sugiro falar, não quero sugerir que você seja imprudente e não se preocupe com as outras pessoas, tome cuidado para não ser babaca com alguém.

Escrever é uma das maneiras que encontro de organizar parte dos meus pensamentos e, também, de me vulnerabilizar um pouco, de mostrar ao mundo partes de quem eu sou. Toda vez que escrevo deixo de ter controle sobre como as pessoas irão reagir ao que publiquei. Alguns podem achar tolo ou patético, outros podem gostar e achar bom. Mas algo que realmente me motiva à escrita, é a minha própria sensação de ver sentido no que escrevi.

Fazer sentido é algo que depende de “por onde se olha”. Algo que tem sentido hoje, amanhã pode parecer completamente sem fundamento. Inclusive, eu aprecio as minhas metamorfoses [aceitação é algo primoroso e, acima de tudo, libertador]. Aliás, por falar em mudanças, que tal começarmos por velhos hábitos? Às vezes sinto dificuldades de compartilhar alguns dos meus pensamentos ou de discordar abertamente, mas eu já aprendi que nenhum dos silêncios que fiz – por conta do medo de falar e de como os outros reagiriam – salvou a minha vida. A propósito, a ideia de que somos protegidos quando guardamos o que pensamos é estapafúrdia.

Você já deixou de dizer algo que gostaria e depois “aquela coisa” ficou te incomodando? É tão perturbador, que é quase como se aquilo que você deixou de dizer/perguntar/discordar tivesse andando de mãos dadas contigo [aquela coisa presa na garganta não te larga]. “Guardar” coisas, por vezes, é corrosivo. A gente fica remoendo e se recriminando pela falta de coragem em dizer e, no fim das contas, acabamos com vários “e se’s” permeando nossos pensamentos. Falar não é fácil, mas não dizer nada, no fim das contas, pode ser ainda pior.

Precisamos encontrar uma maneira saudável de arriscar mais, de se vulnerabilizar. Faço isso facilmente aqui, escrevendo, e, também, no trabalho. Contudo, na vida real ainda é algo que sigo construindo. Aliás, construção é um processo importante. Nós não nascemos sabendo como seria a vida, então, é necessário construir. Construir o nosso conhecimento, as nossas relações, a nossa vida. Construção é um processo que leva tempo. Sei que ser paciente num mundo que te exige presteza é desafiador, mas você precisa praticar a desaceleração [e também o descontrole, mas isso fica para outro texto].

Muitas vezes falo de mim e da minha maneira de lidar com as coisas da vida, não por me achar um sabichão, mas porque foi a forma que encontrei para lidar com ela e suas atribulações. Sabe como encontrei isso? Fazendo algo. Isso significa que você também pode encontrar a sua. Escrever tudo isso, aqui e agora, é uma das formas de romper o silêncio e transformá-lo em ação. Alguns farão isso através da música, luta, dança, pintura, fotografia ou tantas outras coisas que nos conectam.

Andamos carente de conexões. Imagino que essa seja uma das razões pelas quais estamos sempre buscando encontrar o amor das nossas vidas [além de toda influência cultural, é claro]. Tenho aprendido que é importante estar conectado consigo mesmo, com aquilo que você é. É o velho clichê: primeiro com a gente e, depois, com o outro.

(Re)Descubra sua individualidade, não siga se acoplando em outras pessoas. Relações simbióticas não são saudáveis, não faça da sua relação amorosa a única coisa do universo. Lembre-se que antes de ser mãe, pai, filho ou filha, marido ou esposa, irmão e tantas outras coisas, você é você. Você deve pensar que é fácil para alguém solteiro e sem filhos dizer isso, entretanto, não me interprete mal, eu não quero dizer que você deve ser negligente com todas as outras coisas, mas que você não deve ser negligente com você. Acredite [outro clichê agora, perdoem-me], se você não estiver bem contigo, em algum momento isso vai influenciar os outros papéis que você exerce. A grande pergunta é: como dar conta de tudo? Não tem receita certa, você precisa descobrir o seu jeito [terapia tá aí para isso].

Outro dia compartilhei um sentimento íntimo com alguém que poderia ter ficado chateado comigo. Titubeei um pouco, mas saiu. No final, essa pessoa me disse que eram coisas como aquela que a faziam se sentir próxima a mim. Falar a verdade não é fácil, mas em boa parte das situações, ela pode nos aproximar e não nos afastar. Seja cuidadoso e respeitoso, mas quebre os silêncios, transforme-os em ação ao tentar enfrentar os seus medos, isso pode ser importante, pode te fazer bem e, principalmente, te proporcionará conexões extraordinárias.

Sobre o autor:

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contato: Facebook; Instagram; E-mail.

Referências:

Lorde, A (1977). A Transformação do silêncio em linguagem e ação. [Comunicação em painel] Recuperado a partir de https://www.geledes.org.br/a-transformacao-do-silencio-em-linguagem-e-acao/

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